5.2. Monitoramento e Mapeamento da Pastagem

Como comentado no tópico Monitoramento e Mapeamento da Agricultura (Seção 5.1) que apesar de em um conceito mais generalizado a pastagem estar contida como agricultura, dada a especifidade e importância no contexto econômico brasileiro e também para o crédito rural, vamos tratar desse tema nesse capítulo. Neste sentido, o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de carne bovina do mundo. A pecuária de corte é responsável por uma parte significativa do PIB agrícola do Brasil, além de gerar milhões de empregos diretos e indiretos em áreas rurais. A criação de gado bovino para produção de carne é uma atividade que pode ser realizada em diferentes tipos de sistemas produtivos, desde sistemas extensivos, onde o gado é criado em grandes áreas com pouca intervenção humana, até sistemas intensivos, onde o gado é criado em áreas menores com maior manejo e alimentação suplementar. Estima-se que o Brasil tenha um rebanho de 194 milhões de cabeças de gado bovino, sendo que deste total \(\frac{1}{3}\) e \(\frac{1}{4}\) sejam criadas na região Centro-oeste e na região Norte, respectivamente, as maiores regiões produtoras no Brasil [77]. O Censo Agropecuário Brasileiro relatou um aumento significativo nas pastagens cultivadas no Brasil, passando de 74 milhões de hectares em 1985 para 112 milhões de hectares em 2017 [78]. Por outro lado a ABIEC estima que a área total de pastagens no Brasil seja de aproximadamente 170 milhões de hectares [77]. A diferença entre esses valores pode ser atribuída a diferentes metodologias e fontes de dados utilizadas para estimar a área de pastagens. Deve se levar em conta também a questão da diferença entre as classes de pastagem plantada e natural, que são definidas de forma diferente em nos levantamentos e tem implicação nesses números. A pastagem plantada refere-se a áreas onde o capim (forrageira) foi intencionalmente cultivado para alimentação animal, enquanto a pastagem natural refere-se a áreas onde o capim cresce espontaneamente sem intervenção humana significativa.

O monitoramento das pastagens é fundamental para o manejo sustentável. Avaliações precisas e oportunas da produção de pastagens também são essenciais para orientar os agricultores na implementação de práticas adequadas de manejo do pastejo. Sem o manejo adequado do pastejo, pode ocorrer degradação, resultando em redução da qualidade da forragem, maior incidência de doenças, aumento da mortalidade do gado e um declínio significativo na produtividade. Essas consequências têm impactos socioeconômicos significativos, incluindo redução da renda familiar, aumento da pobreza e aumento da insegurança alimentar [79]. Por conta disso, esse tema a degradação das pastagens é muito discutido atualmente. O termo degradação de pastagem pode ser entendido como a redução da capacidade de suporte (quantidade de cabeças por unidade de área) devido à erosão e perda de nutrientes por parte do solo, invasão de plantas daninhas, dentre outros fatores. Dias-Filho [80] divide a degradação de pastagens em dois tipos: i) Degradação Agrícola: quando há uma alteração significativa na composição botânica da pastagem, principalmente pelo aumento excessivo de plantas daninhas; e ii) Degradação Biológica: quando há redução significativa na produção de biomassa das forrageiras em decorrência da redução da fertilidade do solo (com sinais de erosão). Atualmente, a maior parte das pastagens brasileiras apresenta algum nível de degradação, com 32% classificadas como moderadamente degradadas e 27% como severamente degradadas [81]. Em outro estudo foi estimada que no Brasil as pastagens com limitação moderada ou severa no vigor vegetativo ocupavam 109,7 milhões de hectares, o que corresponde a 60% das pastagens brasileiras [82]. Essa diferença entre os estudos pode ser atribuída a diferentes metodologias, critérios de definição de degradação de pastagens e de classificação. Podem ser incluídas ainda nessa diferença a diferença no entendimento de degradação e as fontes de dados utilizadas para estimar o grau de degradação das pastagens.

Entendendo que a degradação de pastagens é um processo complexo que envolve tanto a proliferação de plantas daninhas (degradação agrícola) quanto a redução da biomassa vegetal (degradação biológica) [80], o que torna a sua detecção é extremamente complexa via sensoriamento remoto, pois envolve tanto ganho quanto a perda de biomassa. Para contornar essa dificuldade, Aguiar et al. [83] propôs o uso de séries temporais de imagens de satélite e o uso de métricas fenológicas para identificar intervenções de recuperação e renovação de pastos, bem como a degradação biológica. As intervençoes de recuperação e renovação de pastos foram agrupadas porque ambos envolvem o preparo do solo, uma etapa que altera significativamente os índices de vegetação e gera um sinal detectável na série temporal. Contudo, é importante notar que, mesmo após uma intervenção, a pastagem pode voltar a se degradar devido a fatores como manejo inadequado, falhas no plantio ou taxas de lotação excessivas. A metodologia para extrair as métricas fenológicas das séries temporais do índice espectral (Seção 6.5) EVI2 [84] baseou-se na identificação dos seus valores máximos (max) e mínimos (min) ao longo de cada ano agrícola (Figura 5.4), com exceção da métrica de vigor vegetativo. Para isso, um algoritmo foi desenvolvido para localizar o valor mínimo de EVI2 e a data de sua ocorrência (dmin) dentro de janelas de tempo específicas. Os autores também propõem um protocolo para avaliar as pastagens.

Série temporal média do EVI2 de uma pastagem estudada, destacando o Limite Mínimo Local (LML) e a duração do período seco (ddp), a intensidade do período seco (idp) e o vigor vegetativo (vv) para o ano agrícola 2002/2003.

Figura 5.4 - Série temporal média do EVI2 de uma pastagem estudada, destacando o Limite Mínimo Local (LML) e a duração do período seco (ddp), a intensidade do período seco (idp) e o vigor vegetativo (vv) para o ano agrícola 2002/2003.
Fonte: Aguiar et al. [83].

Abaixo está um exemplo de pastagem onde a intervenção foi detectada e classificada como renovação/recuperação indireta (Figura 5.5). Como pode ser observado, houve uma mudança no valor máximo observado entre os períodos de 2000–2004 e 2008–2012, com os valores máximos do segundo período 10,5% maiores em média do que os do primeiro período. Em setembro de 2004, houve uma queda abrupta no EVI2. Nos dois anos agrícolas seguintes, os valores máximos do EVI2 e a duração dos ciclos indicaram a presença de uma cultura de verão seguida por uma cultura de inverno — em 2004/2005 e 2005/2006 — e uma cultura de ciclo mais longo em 2006/2007 seguida pelo plantio da pastagem. Este é um indicativo renovação indireta pode ser realizada utilizando culturas de verão e inverno [83].

Série temporal EVI2 para uma pastagem (Brachiaria brizantha) amostrada no bioma Mata Atlântica no Estado de São Paulo (18.916°S, 47.855°W); o povoamento foi classificada como “apropriado” em campo: (A) Uma imagem de alta resolução do Google Earth; (B) Uma imagem TM/Landsat (B3G5R4); (C) Uma imagem ETM+/Landsat (B3G5R4); e (D) A fotografia adquirida em campo, respectivamente. A linha azul é a primeira série temporal EVI2 filtrada. A linha vermelha é a série da transformada wavelet. As barras azuis são séries temporais de precipitação TRMM. A linha pontilhada azul indica a intervenção detectada pelo protocolo. O rótulo do ano indica julho para cada ano agrícola.

Figura 5.5 - Série temporal EVI2 para uma pastagem (Brachiaria brizantha) amostrada no bioma Mata Atlântica no Estado de São Paulo (18.916°S, 47.855°W); o povoamento foi classificado como “apropriado” em campo: (A) Uma imagem de alta resolução do Google Earth; (B) Uma imagem TM/Landsat (B3G5R4); (C) Uma imagem ETM+/Landsat (B3G5R4); e (D) A fotografia adquirida em campo, respectivamente. A linha azul é a primeira série temporal EVI2 filtrada. A linha vermelha é a série da transformada wavelet. As barras azuis são séries temporais de precipitação TRMM. A linha pontilhada azul indica a intervenção detectada pelo protocolo. O rótulo do ano indica julho para cada ano agrícola.
Fonte: Aguiar et al. [83].

Uma pastagem amostrada em Porto Nacional, Tocantins, foi utilizada para exemplificar o protocolo utilizado. Nessa análise o coeficiente de declive na regressão linear (-0,679) foi estatisticamente menor que zero (R2 = 0,61; p-valor = 0,001). Até a safra 2004/2005, os valores de vv indicaram que o nível de biomassa estava acima da média observada para a pastagem amostrada anteriormente no bioma Cerrado. A partir da safra 2006/2007, houve uma clara redução do vv, e na safra 2011/2012, o valor acumulado do EVI2 foi 36,6% menor que na safra 2001/2002. Apesar do aumento nos valores do EVI2 em 2007/2008, o critério booleano não demonstrou qualquer tipo de intervenção nesta pastagem. Bc11 e bc12 (idp) foram verdadeiros, indicando ausência de reforma, e bc3 e bc4 (min) foram falsos, indicando ausência de recuperação/renovação. Os valores de EVI2 para o período chuvoso da safra 2006/2007 foram atípicos em comparação aos demais anos agrícolas e não apresentaram o padrão esperado para uma pastagem com capim-andropogon (Figura 5.6). Isso pode ser um indício de que houve alguma intervenção prejudicial ou alteração no regime de pastejo, diminuindo a disponibilidade de biomassa. Se essa safra for excluída da análise, a degradação da pastagem torna-se ainda mais evidente, corroborando a classificação baseada no protocolo [83].

Série temporal EVI2 para uma pastagem (Andropogon) amostrada no bioma Cerrado no estado do Tocantins (10,406°S, 48,476°O); o povoamento foi classificado como "intermediário": (A) a imagem de alta resolução do Google Earth e (B,C) as fotografias adquiridas em campo. A linha azul representa a primeira série temporal EVI2 filtrada. A linha vermelha representa a série da transformada wavelet. As barras azuis representam as séries temporais de precipitação do TRMM. A legenda do ano indica julho para cada ano agrícola.

Figura 5.6 - Série temporal EVI2 para uma pastagem (Andropogon) amostrada no bioma Cerrado no estado do Tocantins (10,406°S, 48,476°O); o povoamento foi classificado como “intermediário”: (A) a imagem de alta resolução do Google Earth e (B,C) as fotografias adquiridas em campo. A linha azul representa a primeira série temporal EVI2 filtrada. A linha vermelha representa a série da transformada wavelet. As barras azuis representam as séries temporais de precipitação do TRMM. A legenda do ano indica julho para cada ano agrícola.
Fonte: Aguiar et al. [83].

O protocolo desenvolvido para avaliar a condição de pastagens tropicais, identifica a degradação por meio de uma regressão linear aplicada aos dados anuais: um coeficiente de declive negativo e estatisticamente significativo aponta para uma perda contínua de biomassa. Para detectar intervenções positivas, como reformas ou recuperações, o protocolo utiliza critérios lógicos (booleanos) que buscam padrões específicos de recuperação da forrageira. Os autores apontam os desafios e limitações que podem levar a interpretações erradas. O uso de fogo, por exemplo, pode ser confundido com uma intervenção de recuperação, pois a queima é seguida por um rápido crescimento da vegetação. Da mesma forma, uma redução drástica na lotação de gado pode fazer a pastagem se recuperar e simular o efeito de uma reforma. Outro ponto crítico é a dificuldade em interpretar um aumento na biomassa, que pode tanto significar um bom manejo quanto um tipo de degradação agrícola, com o avanço de plantas invasoras. O método também não se aplica bem a pastagens irrigadas, que não seguem a sazonalidade esperada, nem a áreas que tiveram outros usos durante o período analisado (por exemplo, culturas temporárias ou cana-de-açúcar) ou convertidas recentemente podem não atender às premissas adotadas. Finalmente, os autores alertam que as conclusões são específicas para as áreas amostradas e não devem ser generalizadas para biomas inteiros, como o Cerrado ou a Amazônia, pois a seleção das amostras não foi aleatória [83]. Como exposto, muito ainda deve ser desenvolvido para estabelecer protocolos robustos e amplamente aplicáveis ao monitoramento de pastagens por sensoriamento remoto. A integração de diferentes fontes de dados, avanços em algoritmos de análise temporal e validação em campo são essenciais para aprimorar a precisão das avaliações. O desenvolvimento de metodologias que considerem as especificidades regionais, tipos de manejo e variações climáticas contribuirá para uma melhor compreensão da dinâmica das pastagens e para a promoção de práticas sustentáveis no setor agropecuário brasileiro.

Assim, como forma de auxílio para entendimento da dificuldade que é o monitoramento e mapeamento das pastagens é apresentada uma série temporal do NDVI para uma área de pastagem (Figura 5.7). Nessa série temporal é possível observar a sazonalidade típica das pastagens tropicais, com picos de vegetação durante a estação chuvosa (aproximadamente entre outubro e março) e declínio durante a estação seca (aproximadamente entre abril e setembro). Além disso, é possível identificar variações anuais na intensidade da vegetação, que podem estar relacionadas a fatores como manejo do pasto, condições climáticas e práticas culturais. Também é marcado um ponto na série temporal com características de nuvem, que pode ser identificado por um valor atípico de NDVI, indicando a importância de considerar a qualidade dos dados ao interpretar séries temporais de índices de vegetação. Duas imagens resultantes de composição colorida RGB são apresentadas para ilustrar a aparência da área de pastagem em diferentes épocas do ano, de chuvas e de secas. Essas imagens ajudam a visualizar as mudanças na cobertura vegetal ao longo do ano, com a vegetação mais densa e verde durante a estação chuvosa e uma aparência mais seca e esparsa durante a estação seca.

Série temporal NDVI para uma pastagem (-50.143; -22.696) utilizando dados Sentinel-2 (2017-2025). As imagens à direita mostram a composição colorida RGB (B11, B8, B4), sendo a superior para a estação de chuva e a inferior para a estação de seca.

Figura 5.7 - Série temporal NDVI para uma pastagem (-50.143; -22.696) utilizando dados Sentinel-2 (2017-2025). As imagens à direita mostram a composição colorida RGB (B11, B8, B4), sendo a superior para a estação de chuva e a inferior para a estação de seca.